Quem é Viktor Orbán, o aliado de Bolsonaro e Trump que corre o risco de perder a primeira eleição em 16 anos

Quem é Viktor Orbán, o aliado de Bolsonaro e Trump que corre o risco de perder a primeira eleição em 16 anos

Mundo

04 de abril de 2026

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Montagem com Peter Magyar, à esquerda, e Viktor Orbán, à direita NurPhoto/AFP via Getty Images "Eles só representam raiva, ódio e destruição", bradou Viktor Orbán, com a voz rouca. O primeiro-ministro húngaro discursava em um comício eleitoral em Györ, no oeste da Hungria, em 27 de março, referindo-se aos manifestantes da oposição que gritavam "Fidesz imundo" durante seu discurso. Por um instante, a imagem cuidadosamente cultivada de uma voz calma que guia seu país por mares tempestuosos foi destruída. Seu acesso de raiva mostrou um lado diferente de um homem acostumado a fazer piadas e a encantar até mesmo seus críticos. A maioria das pesquisas de opinião põe o partido de oposição Tisza e seu líder, Peter Magyar, muito à frente do Fidesz de Orbán — a mais recente com 58% contra 35%. Orbán está fazendo tudo o que pode para diminuir a diferença. Após 16 anos de governo praticamente incontestado, ele foi forçado a voltar à estrada. Nas últimas três eleições, fez poucos comícios, mas, agora, o líder europeu que está há mais tempo tenta mobilizar seus apoiadores e alcançar os indecisos. Orbán tem apenas uma semana para salvar seu governo e o movimento populista internacional que ele representa de uma derrota esmagadora. No poder desde 2010, contou com o apoio tanto do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quanto do líder da Rússia, Vladimir Putin. É uma pedra no sapato da União Europeia há muito tempo e um dos poucos líderes do bloco que não apoia a Ucrânia. Para o crescente grupo de partidos nacionalistas da Europa, no poder ou prestes a chegar ao poder, Orbán é um modelo. Por isso, a eleição parlamentar húngara marcada para 12 de abril tem sido acompanhada de perto em todo o mundo. Orban tem um estilo rústico e campestre NurPhoto via Getty Images "Podemos notar uma grande mudança na percepção pública", diz Endre Hann, da agência Median, uma empresa de pesquisa de opinião pública. Em janeiro, 44% dos entrevistados disseram acreditar que o partido Fidesz, de Orbán, venceria. Já em março, o cenário se inverteu, e 47% passaram a crer que o Tisza, da oposição, triunfaria. "Isso reflete uma enorme mudança de confiança", diz Hann. Uma dinâmica intrigante está se desenrolando: a mesma raiva dos eleitores contra aqueles vistos como "elites governantes corruptas" em toda a Europa agora está se voltando contra Orbán. Na Hungria, agora são Orbán e o partido Fidesz que são vistos por muitos, especialmente pelos jovens, como a "elite governante corrupta". O governo de Orbán tem sido acusado com frequência de drenar os cofres públicos e conceder licitações estatais a empresas que pertencem a pessoas próximas. O governo explica essa concentração de riqueza como uma tentativa de colocar o dinheiro em mãos húngaras, em vez de estrangeiras. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Os projetos incluem pontes, estádios de futebol e rodovias. Seu genro, Istvan Tiborcz, tem uma série de hotéis de destaque. Seu amigo de infância, Lörinc Meszaros, um ex-instalador de gás, tornou-se o homem mais rico do país. Orbán se recusa a responder perguntas sobre a riqueza pessoal de seus amigos e familiares, e todos negam qualquer irregularidade. Poderá Orbán se salvar culpando a Ucrânia e seus apoiadores da União Europeia pelos problemas da Hungria? E poderá o advogado de fala mansa que espera destroná-lo convencer os húngaros, particularmente aqueles em áreas rurais que compõem o reduto do partido Fidesz, de que ele pode entregar um "país mais humano e com melhor funcionamento"? O presidente americano Donald Trump, à esquerda, e líder húngaro Viktor Orbán, à direita Getty Images/BBC Cada dia traz um novo indício de que Orbán está em apuros, desde supostos esquemas de intimidação de eleitores até uma proposta dramática da Rússia para encenar uma falsa tentativa de assassinato contra Orban. Mas o partido Fidesz diz que essa sensação foi criada pela oposição. "Todos esses escândalos são apenas os suspeitos de sempre tentando construir uma narrativa", diz Zoltan Kiszelly, analista político do centro de pesquisa governamental Szazadveg. "Quando a oposição perde, eles têm uma desculpa para alegar fraude." O analista político Gabor Török, um dos poucos nesta sociedade extremamente polarizada respeitado por ambos os lados, escreveu recentemente em seu blog: "Esta não é a imagem de 'força calma' ou 'calma estratégica', nem aquela cuidadosamente cultivada por anos e exibida em cartazes de 'Primeiro-Ministro da Hungria'. Se as duas semanas restantes se desenrolarem assim, não é um bom presságio para o governo." Viktor Orbán conta com apoio de outros políticos de direita na Europa, como Matteo Salvini (Itália), Marine Le Pen (França), Ainars Slesers (Letônia) e Geert Wilders (Holanda) AFP via Getty Images Os impactos da eleição na Hungria para o mundo Uma derrota de Orbán reverberaria muito além das fronteiras da Hungria, segundo especialistas ouvidos pela BBC News. "Budapeste é a sede da democracia iliberal no mundo", diz Michael Ignatieff, ex-reitor da Universidade Centro-Europeia, forçada a sair da capital húngara em 2019. "Esta não é apenas uma eleição. É um referendo sobre todo esse modelo de governo autoritário que Orbán representa." Ele se refere à rede de grupos de estudo e encontros de influenciadores de direita que cruzam o Atlântico para se apoiarem. No mês passado, a Conferência de Ação Política Conservadora Americana e o Patriotas pela Europa, o grupo de direita do Parlamento Europeu, realizaram eventos importantes em Budapeste. O fato de nenhum político americano de destaque ter comparecido ao evento da na Hungria causou estranheza dentro do partido Fidesz, mas os republicanos não estão abandonando Orbán. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, esteve na Hungria em fevereiro, e a visita do vice-presidente JD Vance é esperada na próxima semana. Uma vitória do Fidesz nesta eleição daria mais impulso às chances dos partidos de extrema-direita na França, Alemanha, Polônia, Espanha e Portugal. Uma derrota para o Fidesz, por outro lado, representaria um revés para esses partidos. "Enquanto o resto da Europa é sugado para o túnel do nacionalismo radical, nós podemos mostrar a saída", disse um alto funcionário do Tisza, sob condição de anonimato, à BBC. Suspeita de compra de voto Apesar do fraco desempenho nas pesquisas, os aliados de Orbán negam que haja pânico no partido Fidesz. De acordo com Zoltán Kiszelly, o fator crucial será se o Fidesz conseguirá persuadir seus apoiadores a comparecerem às urnas no dia da votação. "Estamos muito otimistas. Ninguém acredita nas pesquisas de opinião, nem nas nossas nem nas da oposição", diz ele. "A maioria dos eleitores é do Fidesz. Aposentados, mulheres, ciganos, pobres, operários, moradores da zona rural. A questão é: eles vão votar?" Para garantir que votem, o Fidesz tem trabalhado arduamente para atualizar seu banco de dados de apoiadores. Cerca de 4,5 milhões dos 8,2 milhões de eleitores húngaros vivem em pequenas cidades e vilarejos — os redutos do Fidesz. Desde 2002, o partido construiu um forte sistema de clientelismo local nos vilarejos: o prefeito decide quem recebe trabalho e quem recebe lenha no inverno. De acordo com um documentário investigativo divulgado na semana passada, os prefeitos foram informados sobre quantos votos cada vila precisa garantir para o Fidesz. Os entrevistados dizem que os incentivos incluem pagamentos em dinheiro de € 120 (R$ 714 reais) por voto, vales-alimentação, medicamentos controlados e até drogas ilícitas em troca de votos para o Fidesz. Aqueles que se recusam dizem que lhes é negada a oportunidade de participar de projetos de obras públicas, que, muitas vezes, é o único trabalho disponível na região. Carros e micro-ônibus são organizados no dia da eleição. "Acompanhantes" ficam de prontidão para acompanhar os eleitores, que fingem analfabetismo ou doença, até a cabine de votação, para garantir que eles votem no Fidesz e recebam seu dinheiro, afirmam as pessoas entrevistadas no filme. Não houve reação oficial do governo a essas alegações. Um ministro disse à BBC que qualquer irregularidade deve ser tratada pelas autoridades competentes. Em eleições anteriores, partidos rivais ofereceram batatas e até pequenas quantias em dinheiro em troca de votos, mas nada na escala desta eleição, dizem à BBC pessoas que estiveram envolvidas em eleições ao longo das décadas. "Aqui todo mundo vota no Fidesz", diz Nikki, de 32 anos, em Tiszabö, uma vila de 2.000 habitantes, com uma grande maioria cigana, na região norte da Grande Planície da Hungria. Ela elogia o prefeito do Fidesz pela reconstrução das estradas, do jardim de infância e do centro esportivo. Afirma ainda que não será preciso comprar votos no dia 12 de abril, pois o Fidesz vencerá "por causa da guerra". Viktor Orbán transformou a Hungria em um destino internacional para a direita AFP via Getty Images O medo da guerra Orbán diz aos eleitores que esta eleição é uma escolha simples entre a paz e a guerra. De acordo com o Fidesz, somente Orbán pode impedir que os "belicistas" em Bruxelas arrastem a União Europeia — e com ela a Hungria — para lutar na Ucrânia contra a Rússia. Peter Magyar, líder do partido de oposição Tisza, é retratado como um fantoche de Bruxelas. A mensagem do Fidesz é que um voto na oposição significaria que a Hungria, como membro da Otan, seria forçada a enviar tropas húngaras para uma possível futura operação de paz do Aliança Atlântica ou para uma guerra em grande escala contra a Rússia. Assim, jovens húngaros morreriam novamente na chamada Frente Oriental. Essa é uma mensagem elaborada para ressoar profundamente em um país que perdeu ambas as Guerras Mundiais. Desde 2022, Orbán argumenta que a Rússia não pode ser derrotada e que, em vez de apoiar a Ucrânia militar e economicamente, o Ocidente deveria pressionar Kiev a buscar a paz com Moscou — nos termos da Rússia, se necessário. "A mensagem anti-Ucrânia e pró-Rússia do Fidesz está perdendo força", diz o pesquisador Endre Hann, da agência Median. Seus dados mais recentes sugerem que 52% dos entrevistados concordam que "a Rússia cometeu um ato grave e não provocado de agressão contra a Ucrânia" com a invasão em grande escala de 2022. Apenas 33% concordaram com a narrativa de que "a Rússia agiu legalmente, para defender seus interesses e segurança". O primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, à esquerda, e o presidente russo Vladimir Putin, à direita AFP via Getty Images Orbán é o líder da União Europeia que mais apoia a Rússia. Seu governo se recusou a seguir os esforços da Alemanha, República Tcheca e Polônia para se desvencilharem da dependência do petróleo russo. Nesta campanha, o Fidesz pintou a Ucrânia e seu líder, Volodymyr Zelensky, como inimigos. Outdoors gigantes mostram um presidente ucraniano sorridente com o slogan "não deixe Zelensky dar a última risada!". Desde 27 de janeiro, nenhum petróleo bruto da Rússia chegou à Hungria através da Ucrânia pelo oleoduto Druzhba, que significa "oleoduto da amizade". Um importante centro de distribuição e estação de bombeamento em Brody, no oeste da Ucrânia, foi danificado naquele dia em um ataque russo. As refinarias húngaras dependem do oleoduto, e Orbán acusa Zelensky de deliberadamente interromper o fluxo de petróleo para prejudicar suas chances de reeleição. A mensagem "paz ou guerra", argumenta Zoltan Kiszelly, analista do Fidesz, é mais sofisticada do que parece. "O governo pretende conectar a situação atual, a ameaça da falta de petróleo, com questões práticas como o teto nas contas de serviços públicos", ele diz. Desde 2013, todos os chamados custos domésticos, inclusive os de eletricidade, foram limitados pelo governo, resultando nos preços mais baixos em toda a União Europeia. Isso só é possível, argumenta o governo, graças ao petróleo e gás baratos vindos da Rússia. O Fidesz tem se dedicado a criticar a União Europeia e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky NurPhoto via Getty Images Quem é Peter Magyar, o opositor de Orbán Peter Magyar, de 45 anos, é um ex-membro do Fidesz que ingressou no partido como um estudante entusiasmado, casou-se com a ex-ministra da Justiça do Fidesz e trabalhou como diplomata húngaro em Bruxelas. Em fevereiro de 2024, ele abandonou o partido e todos os seus cargos em empresas estatais de repente e concedeu uma entrevista que obteve dois milhões de visualizações em poucos dias, acusando o governo de covardia e corrupção. Ele então fundou o partido Tisza, nomeado em homenagem a um afluente do Danúbio. De figura esguia, vestindo camisas e jaquetas impecáveis, Magyar parecia sofisticado e urbano demais para conquistar o eleitorado rural, mas provou ser um forte desafiante. Orbán, de 62 anos, é um rapaz do interior que fala húngaro local, enquanto Magyar é um advogado formado em Budapeste. Consciente de que seu status como membro da elite metropolitana pode torná-lo menos atraente para os eleitores rurais, Magyar percorreu o interior incansavelmente nos últimos dois anos, atraindo grandes multidões. Ao contrário de Orbán, que discorre com entusiasmo sobre política global em seus discursos, Magyar se concentra em questões internas como saúde, educação, transporte e despovoamento rural. Sua relação com a Rússia também é diferente. Ele prometeu que, se vencer, "estudaremos e, quando necessário, alteraremos os contratos existentes com a Rússia e diversificaremos nossos recursos energéticos". Ele também prometeu "restaurar o assento da Hungria nas mesas da União Europeia e da Otan". Magyar diz que aprendeu rapidamente em suas seis viagens pelo país. Ele abandonou rapidamente suas anotações depois de ser criticado por soar artificial e começou a falar "de coração", disse à BBC no início do ano. "Depois dos primeiros dias, li as críticas e aprendi a me aproximar das pessoas, a deixar que elas perguntem e respondê-las de forma e honesta, o que é raro na política húngara." Enquanto Orbán geralmente visita uma cidade por dia na campanha, Magyar visita de três a seis, em um esforço para alcançar todos os 106 distritos eleitorais até o dia da votação. Ele próprio não é estranho à controvérsia. Após entrar para a política, sua ex-esposa o descreveu como uma figura assustadora, propensa a acessos de raiva e violência doméstica. Manifestantes anti-Tisza chegaram a exibir faixas estampadas com um sapato que ele supostamente teria atirado nela. As tentativas mais recentes do Fidesz para desacreditá-lo incluem convencer uma ex-namorada a gravar secretamente suas conversas e levá-lo a uma festa onde havia consumo de cocaína. Peter Magyar, uma figura mais metropolitana do que Viktor Orbán NurPhoto via Getty Images Magyar nega qualquer abuso doméstico e fala com carinho de sua ex-esposa em público. Ele negou ter usado drogas e, na semana passada, divulgou o resultado negativo de um exame toxicológico, desafiando políticos do Fidesz a fazer o mesmo. Uma pesquisa publicada no início desta semana pela 21 Research Agency, um centro de pesquisa pró-democracia, mostrou que o candidato de Tisza avançava na maioria dos 20 distritos indecisos. Magyar falou de um "ponto de virada" na zona rural e, se esta pesquisa se revelar correta, ele já o atingiu. Orbán e o partido Fidesz possuem um império midiático para amplificar sua mensagem, enquanto Magyar depende fortemente da transmissão ao vivo de cada comício no Facebook. Enquanto líderes da oposição anteriores reuniam multidões de algumas dezenas de pessoas quando se aventuravam para fora de Budapeste, Magyar atrai centenas em vilarejos e milhares ou dezenas de milhares em redutos urbanos provinciais do Fidesz. Um alto funcionário do Fidesz admitiu, a contragosto, que Magyar tem "uma energia brutal", algo que seu próprio grupo muitas vezes não possui. A promessa de Magyar de construir "um país mais humano e eficiente" ressoa com todos aqueles que estão fartos do partido governante, especialmente os jovens. O que pode mudar na Hungria O que significaria uma vitória ou derrota do Fidesz para a Hungria? "O que temos agora é um Estado que foi totalmente capturado por um único partido", diz Andras Baka, ex-presidente do Supremo Tribunal da Hungria. Se o Fidesz vencer, "teremos uma autocracia ainda mais rígida". Se o Tisza vencer, haverá uma longa lista de tarefas a serem enfrentadas, incluindo a restauração da independência dos tribunais, do Ministério Público, do Tribunal de Contas, da mídia pública e dos serviços de inteligência em relação ao governo vigente. Se um governo Tisza conseguirá fazer isso, e com que rapidez, dependerá da margem de vitória.

Fonte: G1
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